Os últimos acontecimentos que estamos presenciando em nossa época – em virtude dos problemas decorrentes da Pandemia de Covid-19, que atingem o mundo todo – nos levam a reflexão de diversos temas. E, nesta ocasião, deixo registrada aqui uma breve reflexão que venho fazendo acerca de dois assuntos específicos. Tais assuntos me inquietam e me ajudam a perceber algumas características da sociedade em que vivemos. Trata de uma reflexão em fase inicial, o que significa que, muito provavelmente, amadurecerá com o tempo. Reflito hoje sobre a ciência e a era da pós-verdade.

Nesse sentido, acredito ser interessante um esclarecimento sobre a ciência à qual me refiro, e ao termo pós-verdade que utilizo. A ciência aqui considerada é aquela que teve sua constituição na Europa Ocidental, que foi posteriormente designada como Ciência Moderna e que hoje podemos reconhecê-la como Ciência Contemporânea. Já o termo pós-verdade se refere aquele que foi definido pelo Dicionário de Oxford como a palavra do ano em 2016, e enunciado pelo mesmo meio como sendo “um adjetivo relacionado ou evidenciado por circunstâncias em que fatos objetivos têm menos poder de influência na formação da opinião pública do que apelos por emoções ou crenças pessoais.”[1] Diante disso, podemos questionar: o que uma coisa tem a ver com outra? O que a perspectiva cristã tem a oferecer sobre esses assuntos?

Bem, a princípio vale a pena destacar algo que, por um lado, é desconhecido por quem não é familiarizado com a narrativa bíblica e com a teologia evangélica, e, por outro lado, foi esquecido por alguns que possuem familiaridade com ambas as coisas. O destaque que faço é referente à cosmovisão cristã e a maneira que ela nos permite compreender o cristianismo como uma visão de mundo abrangente. E, no que diz respeito à atitude do cristão em relação à ciência, essa perspectiva reconhece o senhorio de Deus sobre todas as coisas, compreendendo que o próprio Deus criou a possibilidade da ciência, esta por sua vez – como todas as outras coisas criadas, sejam elas visíveis ou invisíveis – deve ser usada para o bem. Essa perspectiva evidencia a Soberania de Deus e nos ajuda a compreender que reconhecer os limites da ciência não é sinônimo de negacionismo científico.

Todavia, percebe-se que existe uma crença arraigada nos “centros intelectuais” de que, geralmente, aquele que crê (em especial aquele que possui a crença cristã) tende a ser adepto do negacionismo científico. Já é corriqueiro presenciarmos nas mídias a depreciação da fé cristã e a associação dela ao obscurantismo. No entanto, isso só demonstra: ou a ignorância acerca da contribuição do cristianismo para constituição da própria ciência; ou uma espécie de desonestidade intelectual, que pode ter sido motivada pela aversão que muitos desses “articulistas” contemporâneos possuem pela fé cristã.

Recentemente, por exemplo, me deparei em minha timeline com um artigo, publicado num site regional de notícias, denominado: Entre a ciência e a ignorância”[1], o artigo destacava a existência dos que apostam no conhecimento e os que se movem por achismos.” E, logo no início nos é informado que o título do artigo refletia: “o antagonismo entre os que apostam no poder da ciência e os que creem nos labirintos da ignorância, movida por achismos, paixões e crenças em lendas e mitos criados por uma legião de ignaros”. O que me chamou a atenção é que o artigo exemplifica o discurso que, embora falacioso, predomina na academia secular. Nele é possível perceber, ainda que veladamente, a imagem caricaturada do conflito entre Ciência e Crença Cristã.

Embora essa imagem de conflito entre Ciência e Crença Cristã já tenha sido questionada por renomados Historiadores da Ciência, nota-se que até agora essa caricatura é usada para respaldar a opinião de pessoas contrárias à fé cristã. É comum ouvirmos nas salas de aula, ou lermos em livros didáticos, seja do nível básico ou superior, a narrativa de que a Ciência foi um empreendimento da mente Iluminista, e que graças ao Iluminismo a humanidade foi liberta da Idade das Trevas e do domínio da Igreja. Infelizmente, esse discurso falacioso, amplamente explorado por meios midiáticos, acaba cativando até mesmo alguns cristãos.

Estes cristãos – movidos pelo desejo de pertencer à “elite intelectual” e serem reconhecidos como “sujeitos cultos” e “seres da Luz”, – tendem a absorver a dicotomia entre Razão e Crença, e acabam se sujeitando de modo acrítico à tais discursos. Isso pode ser percebido pelo ímpeto que alguns cristãos, em decorrência de tais discursos, têm de “defender” a ciência em detrimento da fé, esta que, segundo eles, deve ser deixada em seu “devido lugar”. Mal sabem alguns que a ideia de que a crença cristã (ou o cristianismo propriamente dito) é um empecilho à racionalidade, ou de que a crença cristã é antagônica ao conhecimento científico, não passa de um artifício usado para que fatos objetivos (nesse caso fatos históricos) tenham seus poderes de influencia minimizados na formação da opinião das pessoas. Nesse ponto a reflexão que faço é: seria a ideia de pós-verdade útil para compreendermos situações semelhantes a essa? De todo modo, penso que a associação da fé cristã ao negacionismo e da religião ao obscurantismo, além de ser equivocada, incita, na maioria das vezes, comportamentos reativos e não reflexivos. O que é um prato cheio para manipulação midiática.

Referências

[1] https://www.revistas.usp.br/revusp/article/download/146577/140223/

[2] https://www.midianews.com.br/opiniao/entre-a-ciencia-ea-ignorancia/373777